O Magistral Fernando Pessoa

PRECE

 

Senhor, que és o céu e a terra, que és a vida e a morte! O sol és tu e a lua és tu e o vento és tu! Tu és os nossos corpos e as nossas almas e o nosso amor és tu também. Onde nada está tu habitas e onde tudo está – (o teu templo) – eis o  teu corpo.

Dá-me alma para te servir e  alma para te amar. Dá-me vista para te ver sempre no céu e  na terra, ouvidos para te ouvir no vento e no mar, e mãos para  trabalhar em teu nome.

Torna-me puro como a água e  alto como o céu. Que não haja lama nas estradas dos meus  pensamentos nem folhas mortas nas lagoas dos meus propósitos. Faze  com que eu saiba amar os outros como irmãos e servir-te como a um pai.

       […]

Minha vida seja digna da tua  presença. Meu corpo seja digno da terra, tua cama. Minha alma  possa aparecer diante de ti como um filho que volta ao lar.

Torna-me grande como o Sol, para que  eu te possa adorar em mim; e torna-me puro como a lua, para que eu te  possa rezar em mim; e torna-me claro como o dia para que eu te possa ver  sempre em mim e rezar-te e adorar-te.

Senhor, protege-me e ampara-me. Dá-me que eu me sinta teu. Senhor, livra-me de mim.

Fernando Pessoa em “O Eu Profundo“. 1912(?)